Carl Rogers ocupa uma posição importante na história da Psicologia Humanista e no desenvolvimento de novas formas de compreender a relação terapêutica.
Sua proposta deslocou parte da atenção das técnicas utilizadas pelo terapeuta para a qualidade da relação estabelecida com a pessoa atendida.
Ao longo de sua trajetória, sua abordagem recebeu diferentes denominações: terapia não diretiva, terapia centrada no cliente e, posteriormente, Abordagem Centrada na Pessoa.
Entre os conceitos mais conhecidos associados ao pensamento de Rogers estão empatia, congruência e consideração positiva incondicional.
Essas ideias, entretanto, precisam ser compreendidas dentro do contexto teórico da Psicologia Humanista, e não como uma lista de comportamentos ou técnicas que garantem determinado resultado.
Quem foi Carl Rogers?
Carl Ransom Rogers nasceu em 1902, nos Estados Unidos, e tornou-se um dos nomes mais influentes da Psicologia Humanista no século XX.
Rogers desenvolveu uma abordagem que atribuía grande importância à experiência subjetiva da pessoa e à qualidade da relação estabelecida no contexto terapêutico.
Também participou de pesquisas sobre psicoterapia e contribuiu para o estudo sistemático de elementos presentes na relação entre terapeuta e cliente.
Sua influência posteriormente alcançou outros campos, incluindo educação, grupos, relações interpessoais e estudos sobre comunicação.
O que é a Abordagem Centrada na Pessoa?
A Abordagem Centrada na Pessoa é uma perspectiva humanista desenvolvida a partir dos trabalhos de Rogers.
Sua nomenclatura mudou ao longo do tempo.
Inicialmente, Rogers utilizou a expressão terapia não diretiva.
Posteriormente, passou a utilizar terapia centrada no cliente.
Com a ampliação de suas ideias para outros contextos além da psicoterapia, consolidou-se também a expressão Abordagem Centrada na Pessoa.
Essa evolução terminológica mostra que o pensamento de Rogers ultrapassou o contexto estritamente clínico.
O lugar da pessoa na teoria de Rogers
Uma característica central da abordagem é a valorização da experiência subjetiva.
Em vez de compreender a pessoa apenas a partir de categorias externas, Rogers atribuiu importância à maneira como ela própria percebe e organiza suas experiências.
Isso não significa que toda percepção subjetiva corresponda necessariamente aos fatos externos.
A proposta teórica está relacionada a reconhecer que a maneira como alguém experimenta determinada situação possui importância para compreender seu funcionamento psicológico.
Essa concepção está relacionada ao chamado campo fenomenológico, isto é, ao universo de experiências tal como é percebido pela própria pessoa.
O que é a tendência atualizante?
Outro conceito importante no pensamento de Rogers é a tendência atualizante.
Na teoria rogeriana, esse conceito se refere a uma tendência do organismo em direção ao desenvolvimento, à manutenção e à realização de suas potencialidades.
É importante apresentar esse ponto com precisão.
A tendência atualizante é uma formulação teórica da Abordagem Centrada na Pessoa.
Ela não significa que todo ser humano necessariamente apresentará um desenvolvimento positivo independentemente das circunstâncias.
Rogers considerava que diferentes condições ambientais e relacionais poderiam favorecer ou dificultar determinados processos de desenvolvimento.
Portanto, o conceito não deve ser interpretado como uma promessa de crescimento inevitável.
A importância da relação na abordagem rogeriana
Um dos aspectos mais conhecidos da obra de Rogers está relacionado à importância atribuída à relação terapêutica.
A pergunta central deixa de ser apenas:
“Qual técnica deve ser utilizada?”
e inclui também:
“Quais características da relação são relevantes dentro desse modelo terapêutico?”
Rogers desenvolveu uma formulação na qual determinadas condições relacionais ocupam posição central.
Entre elas, três ficaram especialmente conhecidas:
- empatia;
- congruência;
- consideração positiva incondicional.
Esses conceitos pertencem ao modelo rogeriano e precisam ser compreendidos dentro de uma relação profissional e de um contexto teórico específico.
O que significa empatia para Carl Rogers?
Na tradição rogeriana, a empatia está relacionada à tentativa de compreender a experiência da outra pessoa a partir do referencial dela.
Isso significa procurar compreender:
- como determinada situação é percebida;
- que significado ela possui;
- como diferentes sentimentos são vivenciados;
- de que maneira a pessoa organiza sua própria experiência.
Empatia, nesse sentido, não é apenas cordialidade.
Também não significa sentir exatamente aquilo que a outra pessoa sente.
O conceito envolve compreender a experiência do outro sem perder a distinção entre as duas pessoas.
Empatia é o mesmo que concordar?
Não.
Essa é uma distinção importante.
É possível compreender como alguém percebeu uma situação sem afirmar que aquela interpretação seja necessariamente a única ou a mais adequada.
Por exemplo, compreender que alguém vivenciou determinado acontecimento como rejeição não significa estabelecer como fato que houve, objetivamente, intenção de rejeitar.
A empatia, dentro da abordagem, refere-se à compreensão da experiência subjetiva.
Ela não deve ser confundida com concordância automática.
O que significa congruência?
A congruência é outro conceito fundamental na teoria de Rogers.
De maneira geral, está relacionada à autenticidade e à genuinidade dentro da relação.
Na perspectiva rogeriana, o terapeuta não é pensado simplesmente como uma figura neutra, distante ou artificial.
Isso não significa, contudo, ausência de limites profissionais.
Congruência também não significa dizer tudo o que se pensa ou sente.
O conceito refere-se a uma qualidade de presença na qual existe maior coerência entre a experiência do profissional e a maneira como ele participa da relação.
Congruência não significa ausência de limites
Esse ponto precisa ser enfatizado porque o conceito pode ser facilmente distorcido.
Autenticidade não elimina:
- responsabilidade profissional;
- ética;
- sigilo;
- limites da relação;
- avaliação do contexto.
A atuação profissional continua submetida às normas e responsabilidades próprias da atividade exercida.
Portanto, congruência não pode ser interpretada como liberdade para utilizar a relação profissional de qualquer maneira.
O que é consideração positiva incondicional?
Outro conceito amplamente associado a Rogers é a consideração positiva incondicional.
Dentro de sua teoria, a expressão está relacionada a uma atitude de respeito e consideração pelo valor da pessoa sem condicionar esse valor à necessidade de atender determinadas expectativas.
Isso não significa aprovar todas as atitudes ou comportamentos.
Essa distinção é fundamental.
Pode-se distinguir teoricamente entre:
respeitar a pessoa
e
concordar com tudo o que ela faz.
São coisas diferentes.
A consideração positiva incondicional é um conceito relacional da abordagem, não uma orientação para ignorar comportamentos prejudiciais, riscos ou limites.
Aceitação significa concordar com tudo?
Não.
Na popularização das ideias de Rogers, às vezes a aceitação é interpretada como ausência completa de avaliação ou limites.
Essa leitura é inadequada.
A aceitação da pessoa não transforma automaticamente todos os comportamentos em aceitáveis.
Em contextos profissionais, continuam existindo critérios éticos, responsabilidades, limites e necessidades de avaliação.
Por isso, a consideração positiva incondicional precisa ser entendida no contexto da teoria rogeriana, e não como regra de concordância irrestrita.
O conceito de self em Rogers
O self ocupa posição importante na teoria de Rogers.
De maneira simplificada, refere-se à organização das percepções que uma pessoa possui sobre si mesma.
Essa organização pode envolver:
- características que reconhece em si;
- ideias sobre quem acredita ser;
- percepções sobre seu próprio valor;
- expectativas sobre si;
- relações com outras pessoas.
O self é um constructo teórico utilizado por Rogers para discutir como a pessoa organiza sua experiência e sua identidade.
O que é incongruência?
Rogers também utilizou o conceito de incongruência.
Na teoria, ele se refere a uma discrepância entre a experiência vivida e a maneira como essa experiência é incorporada à percepção consciente da própria pessoa.
Um exemplo puramente didático seria alguém que possui uma imagem de si como uma pessoa que “nunca sente raiva”, ao mesmo tempo em que vivencia frequentemente sentimentos de irritação.
Na perspectiva rogeriana, uma discrepância entre experiência e autoimagem poderia ser discutida em termos de incongruência.
Esse exemplo não constitui diagnóstico nem permite avaliar uma pessoa real a partir de uma única característica.
O que são condições de valor?
Outro conceito encontrado na obra de Rogers é o de condições de valor.
Na teoria, essas condições estariam relacionadas à experiência de perceber que determinados aspectos pessoais são valorizados apenas quando correspondem a expectativas externas.
Um exemplo didático seria:
“Só tenho valor quando obtenho bons resultados.”
Dentro da formulação rogeriana, experiências desse tipo poderiam participar da construção de uma autoimagem mais condicionada às expectativas externas.
Novamente, trata-se de uma explicação teórica.
Uma única frase ou comportamento não é suficiente para estabelecer que determinada pessoa possui uma organização psicológica específica.
Self real e self ideal
Parte da literatura rogeriana também trabalha com a relação entre a percepção atual de si e aquilo que a pessoa considera que deveria ou gostaria de ser.
Essas dimensões costumam ser apresentadas como:
self percebido e self ideal.
Dentro da teoria, discrepâncias significativas entre essas formas de autopercepção podem estar relacionadas à incongruência.
Essa formulação faz parte do modelo desenvolvido por Rogers e não representa, isoladamente, categoria diagnóstica.
A pessoa plenamente funcional
Rogers utilizou a expressão pessoa plenamente funcional para descrever características de um funcionamento que, dentro de sua teoria, seria marcado por maior abertura à experiência e flexibilidade.
A expressão não significa perfeição.
Também não descreve uma classificação clínica.
Ela representa um ideal teórico relacionado a características como:
- maior abertura à própria experiência;
- menor rigidez na organização da identidade;
- maior capacidade de adaptação;
- contato mais flexível com as experiências vividas.
O conceito pertence ao sistema teórico humanista desenvolvido por Rogers.
A abordagem de Rogers é passiva?
Não.
Uma interpretação bastante comum é imaginar a Abordagem Centrada na Pessoa como uma prática na qual o profissional apenas escuta silenciosamente ou repete as últimas palavras da pessoa atendida.
Essa descrição é excessivamente simplificada.
A abordagem enfatiza uma forma específica de presença e participação na relação.
Historicamente, Rogers questionou modelos excessivamente diretivos, mas isso não significa ausência de participação.
A diferença está principalmente na maneira como é concebida a autonomia da pessoa dentro do processo.
O que significa “não diretiva”?
A expressão terapia não diretiva foi utilizada por Rogers em um período inicial de sua trajetória.
Ela destacava sua crítica à ideia de que o profissional deveria determinar constantemente quais conteúdos seriam discutidos ou quais decisões deveriam ser tomadas.
Posteriormente, a mudança para “centrada no cliente” e depois “centrada na pessoa” refletiu o próprio desenvolvimento de sua teoria.
Portanto, reduzir a abordagem atual ao termo “não diretiva” pode deixar de fora partes importantes de sua evolução histórica.
A influência de Rogers ultrapassa sua própria abordagem
Algumas ideias enfatizadas por Rogers passaram a receber atenção em diferentes tradições psicoterapêuticas.
A pesquisa contemporânea sobre psicoterapia investiga, por exemplo:
- qualidade da relação terapêutica;
- aliança terapêutica;
- empatia;
- colaboração;
- características do profissional;
- percepção do cliente sobre a relação.
Isso não significa que todas as abordagens adotem a teoria rogeriana.
Também não significa que a relevância de determinados fatores relacionais comprove automaticamente todo o sistema teórico da Abordagem Centrada na Pessoa.
É importante distinguir essas duas questões.
Empatia não é uma “técnica que cura”
Esse tipo de formulação deve ser evitado.
A pesquisa em psicoterapia reconhece a importância de diferentes fatores relacionais, mas resultados terapêuticos dependem de múltiplas variáveis.
Entre elas podem estar:
- características da pessoa;
- natureza da demanda;
- contexto;
- qualidade da relação profissional;
- abordagem empregada;
- condições sociais e ambientais;
- características da intervenção.
Por isso, seria inadequado afirmar que empatia, congruência ou aceitação, isoladamente, garantem determinado resultado.
A Abordagem Centrada na Pessoa é apenas “ser gentil”?
Não.
Essa simplificação também reduz bastante a teoria.
Rogers desenvolveu conceitos relacionados a:
- self;
- congruência;
- incongruência;
- tendência atualizante;
- condições de valor;
- experiência subjetiva;
- relação terapêutica.
Empatia e consideração positiva fazem parte desse sistema mais amplo.
Gentileza pode ser uma qualidade interpessoal importante, mas não é sinônimo de Abordagem Centrada na Pessoa.
Rogers e a pesquisa em psicoterapia
Outro aspecto importante da trajetória de Rogers foi seu interesse pela investigação sistemática da psicoterapia.
Ele participou de trabalhos que utilizaram registros de sessões e outros recursos para estudar processos terapêuticos.
Essa preocupação contribuiu para o desenvolvimento da pesquisa em psicoterapia e para o estudo das características presentes na relação entre profissional e cliente.
Sua contribuição histórica, portanto, não se limitou à formulação de uma teoria humanista.
A Abordagem Centrada na Pessoa possui evidências científicas?
Essa pergunta exige uma resposta cuidadosa.
Existe literatura científica sobre abordagens humanistas, terapias centradas na pessoa e fatores relacionais envolvidos na psicoterapia.
Também há uma extensa produção científica sobre elementos como empatia e aliança terapêutica.
Entretanto, isso não significa que todos os conceitos filosóficos e teóricos desenvolvidos por Rogers possuam exatamente o mesmo nível de sustentação empírica.
É mais rigoroso avaliar separadamente:
a importância histórica e teórica da abordagem
e
as evidências científicas disponíveis para conceitos, processos e resultados específicos.
Essa distinção evita tratar um sistema teórico inteiro como se todos os seus elementos possuíssem o mesmo tipo de comprovação.
A Abordagem Centrada na Pessoa não deve ser reduzida a frases inspiradoras
Assim como aconteceu com outros autores conhecidos, algumas ideias de Rogers passaram a circular na internet de maneira simplificada.
Expressões relacionadas a “ser quem você realmente é”, “aceitar-se completamente” ou “tornar-se sua melhor versão” podem lembrar alguns temas humanistas, mas não substituem o estudo de sua obra.
A Psicologia Humanista possui conceitos, contexto histórico e debates teóricos próprios.
Estudar Rogers exige mais do que reunir frases motivacionais atribuídas a ele.
Por que estudar Carl Rogers?
Conhecer a obra de Rogers permite compreender um capítulo importante da história da Psicologia e da psicoterapia.
Seu pensamento contribui para o estudo de temas como:
- Psicologia Humanista;
- experiência subjetiva;
- self;
- empatia;
- congruência;
- consideração positiva incondicional;
- relação terapêutica;
- autonomia.
Também ajuda a compreender por que a relação entre profissional e pessoa atendida passou a ocupar espaço importante em diferentes discussões sobre psicoterapia.
Considerações finais
Carl Rogers desenvolveu uma perspectiva que colocou a experiência da pessoa e a qualidade da relação em posição central.
Empatia, congruência e consideração positiva incondicional tornaram-se alguns dos conceitos mais conhecidos de sua obra.
Eles, porém, não devem ser tratados como fórmulas ou garantias de resultado.
Fazem parte de uma teoria mais ampla sobre experiência subjetiva, self, relações e desenvolvimento humano.
A influência histórica de Rogers também está relacionada à sua contribuição para o estudo da psicoterapia e à valorização da pessoa como participante ativa da relação terapêutica.
Compreender sua obra com rigor significa reconhecer sua importância sem transformar conceitos humanistas em regras universais ou simplificações motivacionais.
Perguntas frequentes
O que é a Abordagem Centrada na Pessoa?
É uma abordagem humanista desenvolvida por Carl Rogers que atribui especial importância à experiência subjetiva, à autonomia da pessoa e à qualidade da relação estabelecida no contexto terapêutico.
O que é empatia para Carl Rogers?
Dentro da teoria rogeriana, empatia está relacionada à compreensão da experiência da outra pessoa a partir de seu referencial, mantendo a distinção entre a experiência do outro e a do próprio profissional.
Empatia significa concordar com tudo?
Não. Compreender a experiência de uma pessoa não significa necessariamente concordar com todas as suas interpretações ou comportamentos.
O que é congruência?
É um conceito associado à autenticidade e genuinidade dentro da relação. Não significa ausência de limites profissionais.
O que é consideração positiva incondicional?
Na teoria de Rogers, refere-se a uma atitude de respeito e consideração pela pessoa sem condicionar seu valor à necessidade de atender determinadas expectativas. Não equivale à aprovação irrestrita de todos os comportamentos.
O que é tendência atualizante?
É um conceito da teoria rogeriana relacionado à tendência do organismo em direção à manutenção, ao desenvolvimento e à realização de potencialidades. Deve ser compreendido como formulação teórica da abordagem.
A Abordagem Centrada na Pessoa é uma terapia em que o profissional apenas escuta?
Não. Essa é uma simplificação. A abordagem pressupõe presença e participação profissional, embora historicamente enfatize a autonomia da pessoa e questione formas excessivamente diretivas de atuação.
Empatia garante resultado terapêutico?
Não. Nenhum fator isolado permite garantir resultados. Processos terapêuticos envolvem múltiplas variáveis
Toda a teoria de Carl Rogers é cientificamente comprovada?
Não é adequado apresentar dessa maneira. Diferentes aspectos de sua obra e da relação terapêutica foram pesquisados, mas os vários conceitos da teoria possuem naturezas e níveis de evidência diferentes.


