Para Além das Teorias: O Resgate do Fator Humano na Psicoterapia
O Instituto Flávio Pereira (IFP) tem como um de seus pilares a transparência e a busca por uma prática psicoterapêutica fundamentada em evidências, despida de dogmas e ideologias. Neste artigo, propomos uma reflexão crítica sobre a real necessidade das teorias da psicologia, das teorias da personalidade e das técnicas específicas derivadas desses modelos no tratamento do sofrimento psíquico. Argumentamos que houve uma supervalorização histórica dessas construções teóricas em detrimento do que a ciência moderna tem demonstrado ser o verdadeiro motor da mudança terapêutica: os fatores comuns.
A Fragilidade das Grandes Teorias: Especulação vs. Ciência
Durante décadas, a formação em psicologia e psicoterapia esteve ancorada no estudo aprofundado de grandes sistemas teóricos, como os de Freud, Jung, Rogers, Skinner, entre outros. Os estudantes foram ensinados a ver seus clientes através das lentes dessas teorias, que prometiam um mapa para a complexa paisagem da psique humana. Contudo, uma análise rigorosa das próprias fontes que apresentam essas teorias revela uma base surpreendentemente frágil, marcada por especulação, subjetividade e uma notável ausência de rigor científico.
O documento “Críticas aos Fundadores da Psicologia”, compilado pelo Psic. Flávio Roberto Pereira , sintetiza as críticas presentes em manuais de referência da área, como os de Feist et al., Schultz & Schultz, e Hall, Lindzey & Campbell. As conclusões são contundentes:
A teoria de Freud, por exemplo, é amplamente considerada não científica, baseada em observações subjetivas e com conceitos impossíveis de serem testados ou refutados . O próprio Freud confessou em carta a um amigo: “eu, na verdade, não sou absolutamente um homem da ciência… Sou, por temperamento, nada mais do que um conquistador – um aventureiro” .
Essa fragilidade não se restringe à psicanálise. A psicologia analítica de Jung é criticada por sua linguagem figurada, falta de definições operacionais e por se apoiar mais na fé e em experiências místicas do que em evidências empíricas . Mesmo a abordagem humanista de Carl Rogers, que tanto contribuiu para a valorização da relação terapêutica, é questionada pela imprecisão de conceitos centrais como “tendência à atualização” e “experiência organísmica”, que não se prestam a uma verificação rigorosa .
Essas teorias, muitas vezes, funcionam mais como sistemas de crenças ou ideologias do que como modelos científicos. Elas tentam enquadrar a pessoa que sofre em um sistema fechado (freudiano, junguiano, rogeriano, etc.), exigindo uma espécie de “conversão” ou doutrinação para que a mudança ocorra. O IFP se posiciona firmemente contra essa abordagem, que pode levar à formação de “seitas” de terapeutas que se sustentam em especulações romantizadas, e não na busca transparente pelo que de fato ajuda o cliente.
O Poder dos Fatores Comuns: O Que Realmente Funciona na Terapia
Se as teorias e suas técnicas específicas não são a base da eficácia terapêutica, o que é? A resposta, apoiada por décadas de pesquisa, está nos chamados fatores comuns — elementos presentes em diferentes abordagens de psicoterapia que são os verdadeiros responsáveis pela melhora do cliente.
A tese de que as teorias estão em segundo plano não é nova. Já em 1936, Saul Rosenzweig cunhou a expressão “Veredito do Pássaro Dodô” (em alusão a Alice no País das Maravilhas, onde todos ganham a corrida e devem receber prêmios), para descrever a observação de que diferentes tipos de psicoterapia apresentavam resultados surpreendentemente similares . Pesquisas mais recentes, utilizando a metodologia de meta-análise, confirmaram essa equivalência, sugerindo que os ingredientes ativos da terapia não são as técnicas específicas de cada modelo, mas sim os fatores que eles compartilham .
O pesquisador Bruce Wampold, em um influente artigo de atualização publicado no World Psychiatry, sintetiza a robusta evidência a favor dos fatores comuns. Sua meta-análise, envolvendo quase 200 estudos e mais de 14.000 pacientes, demonstrou que a aliança terapêutica — a qualidade da relação entre terapeuta e cliente — é o preditor mais consistente de um resultado positivo na terapia .
Os principais fatores comuns, cuja eficácia é amplamente corroborada pela ciência, incluem:
Fator Comum | Descrição | Evidência Chave |
Aliança Terapêutica | A qualidade do vínculo colaborativo, incluindo o acordo sobre metas e tarefas. | É o fator mais pesquisado, com um tamanho de efeito médio a grande na previsão do sucesso terapêutico . |
Empatia | A capacidade do terapeuta de compreender e se conectar com a experiência subjetiva do cliente. | Consistentemente associada a melhores resultados em diversas abordagens terapêuticas . |
Consideração Positiva | A aceitação genuína e não-julgadora do cliente pelo terapeuta. | Considerada uma condição essencial para a mudança, especialmente na tradição humanista, e parte da “relação real” . |
Expectativas e Esperança | A criação de um senso de esperança e a crença do cliente de que a terapia pode ajudar (efeito placebo/remoralização). | O modelo contextual de Wampold destaca a criação de expectativas como um dos três caminhos para a mudança . |
A Pessoa do Terapeuta | Características pessoais do terapeuta, como suas habilidades interpessoais, autenticidade e capacidade de formar um vínculo. | Pesquisas mostram que o terapeuta individual tem um impacto maior no resultado do que o tipo de terapia que ele pratica . |
Essas evidências anulam a tese de que as teorias e as técnicas específicas estão na frente dos fatores comuns. A pessoa do terapeuta, a relação que ele constrói com o cliente e o clima de confiança, afeto e consideração são os elementos centrais do processo de cura.
Conclusão: Uma Prática Focada no Essencial
Se a base comprovada de uma boa psicoterapia é o apoio emocional ao cliente e a facilitação de seu próprio insight (entendimento consciente), a necessidade de se devotar ao estudo exaustivo de teorias especulativas e muitas vezes inúteis para a prática clínica torna-se questionável. Um terapeuta pode ser altamente eficaz sem se submeter a ideologias teóricas, focando em desenvolver as qualidades humanas e as habilidades relacionais que a ciência aponta como essenciais.
O Instituto Flávio Pereira reafirma seu compromisso com uma prática psicoterapêutica transparente, não ideológica e não doutrinária. Acreditamos que o foco deve estar no desenvolvimento de terapeutas com alta consciência ética, que saibam oferecer um apoio emocional genuíno e criar um ambiente seguro para que o cliente possa encontrar seu próprio caminho de cura. O verdadeiro conhecimento terapêutico não reside em decorar teorias, mas em cultivar a capacidade de construir uma relação humana que, por si só, é profundamente transformadora.
Referências
[1] Pereira, F. R. (2024). Críticas aos Fundadores da Psicologia. Instituto Flávio Pereira.
[2] Feist, J., Feist, G. J., & Roberts, T.-A. (2015). Teorias da Personalidade (8ª ed.). Artmed.
[3] Lee, C. M., & Hunsley, J. (2015). Evidence-Based Practice: Separating Science From Pseudoscience. The Canadian Journal of Psychiatry, 60(12), 534–540.
[4] Rosenzweig, S. (1936). Some implicit common factors in diverse methods of psychotherapy. American Journal of Orthopsychiatry, 6(3), 412–415.
[5] Budd, R., & Hughes, I. (2009). The Dodo Bird Verdict–controversial, inevitable and important: a commentary on 30 years of meta-analyses. Clinical psychology & psychotherapy, 16(6), 510–522.
[6] Wampold, B. E. (2015). How important are the common factors in psychotherapy? An update. World psychiatry : official journal of the World Psychiatric Association (WPA), 14(3), 270–277.
[7] Hubble, M. A., Duncan, B. L., & Miller, S. D. (Eds.). (1999). The heart and soul of change: What works in therapy. American Psychological Association.
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