Ideação Suicida
O Oceano do Desespero:
Um Estudo de Caso sobre Depressão e Ideação Suicida
Este estudo de caso explora a complexa teia de uma ideação suicida detalhada, analisada sob a ótica de seis dos mais influentes pensadores da psicologia e psicoterapia. O caso, aqui representado por um cliente que chamaremos de “Arthur”, revela um plano meticuloso e simbólico:
O cliente pensa em comprar um pequeno barco a motor e seguir rumo ao mar, vai colocar no barco uma pedra grande, amarrará a pedra na perna dele junto ao pé, quando estiver bem distante da praia, sem que pessoas possam ver o barco, jogará a pedra no mar, vai segurar com uma mão na borda do barco e com a outra, pegará um revolver e dará um tiro direto no coração, assim não morrerá afogado. Antes fará um buraco no barco para ele afundar e assim ninguém saberá de nada. Ele pensa em não dar trabalho para as pessoas no preparo do funeral.
Este plano não é apenas um método, mas uma narrativa densa de dor, desespero e uma lógica interna que precisa ser decifrada. A seguir, mergulharemos nas interpretações de Freud, Lacan, Jung, Beck, Frankl e Rogers para iluminar as profundezas deste oceano de desespero.
- Sigmund Freud: O Naufrágio da Melancolia
Metáfora: Para Freud, o caso de Arthur é como um julgamento em um tribunal secreto. O juiz, o promotor e o réu são a mesma pessoa. A sentença de morte é proferida não contra si mesmo, mas contra um “outro” que vive dentro dele.
Visão Teórica: Freud diagnosticaria Arthur com Melancolia. Diferente do luto, onde o mundo se torna pobre e vazio, na melancolia, é o próprio eu que se torna pobre e vazio. Arthur não perdeu algo no mundo; ele perdeu uma parte de si mesmo ao internalizar um “objeto de amor” perdido (uma pessoa, um ideal, uma carreira). O ódio e a raiva que ele sentia por esse objeto agora são sadicamente direcionados contra seu próprio ego. O plano suicida é, na verdade, um assassinato disfarçado. O tiro no coração é o ataque final a este “outro” internalizado. A preocupação em “não dar trabalho” é uma formação reativa, uma máscara de cuidado que esconde a mais profunda agressão.
Técnicas:
- Associação Livre: Freud convidaria Arthur a falar livremente sobre tudo o que lhe viesse à mente, buscando pistas e conexões que revelassem a identidade do objeto perdido e a origem da raiva.
- Análise dos Sonhos: Os sonhos seriam vistos como a “via régia para o inconsciente”, um palco onde o conflito se manifesta de forma simbólica.
- Interpretação: O terapeuta interpretaria as resistências e as transferências para trazer à consciência o conteúdo reprimido. O objetivo é fazer Arthur perceber que o ódio que sente por si mesmo pertence a outro lugar, a outra pessoa, a outra história.
- Jacques Lacan: A Passagem ao Ato e a Saída da Cena
Metáfora: A ideação de Arthur é como um ator que decide, no meio da peça, demolir o teatro inteiro. Ele não está tentando enviar uma mensagem ao público (acting out), mas sim apagar o próprio palco da existência.
Visão Teórica: Lacan interpretaria o plano de Arthur como uma Passagem ao Ato. Este é um ato impulsivo e radical que visa uma separação total do “Grande Outro” – a ordem simbólica, a linguagem, as expectativas sociais que o esmagam. Arthur se sente tão aniquilado e sem lugar no mundo simbólico que a única saída que ele vislumbra é uma queda literal para fora da cena. O plano meticuloso (o barco, a pedra, o tiro, o afundamento) é uma tentativa desesperada de ter autoria sobre seu próprio desaparecimento, um último ato de afirmação no momento mesmo de sua aniquilação.
Técnicas:
- A Escuta Analítica: O analista ofereceria uma escuta radicalmente diferente da escuta social. Não se trata de dar conselhos ou “entender”, mas de criar um espaço onde o significante de Arthur possa emergir.
- Pontuação e Corte: O analista interviria minimamente, com pontuações ou cortes na sessão, para sublinhar palavras ou frases que revelem a posição de Arthur em relação ao seu desejo e ao Outro.
- Manejo da Transferência: O objetivo é que Arthur possa endereçar sua angústia ao analista, transformando o ato de morte em palavra. Ao falar, ele pode começar a construir uma nova narrativa para si, uma que não termine no fundo do mar.
- Carl Jung: A Sombra que Afunda o Barco da Vida
Metáfora: O barco de Arthur é o seu Self, a totalidade de sua psique. A viagem ao mar é a jornada para o inconsciente, mas em vez de buscar um tesouro, ele planeja ser afundado pela Sombra, a pedra amarrada ao seu pé.
Visão Teórica: Para Jung, a depressão de Arthur é um sinal de que o processo de individuação – a jornada para se tornar quem ele realmente é – foi tragicamente interrompido. A vida perdeu o sentido. A ideação suicida é um chamado desesperado da alma por transformação. A “Sombra”, a parte reprimida e sombria de sua personalidade, acumulou tanto peso (a pedra) que agora ameaça afundar toda a sua consciência. O desejo de desaparecer no mar é um desejo de retornar ao inconsciente coletivo, de se dissolver na totalidade de onde viemos, porque a vida individual se tornou insuportável.
Técnicas:
- Análise de Sonhos e Imaginação Ativa: Jung exploraria os símbolos do plano de Arthur (o barco, o mar, a pedra) como mensagens do inconsciente. Ele poderia pedir a Arthur para dialogar com essas imagens em um estado de imaginação ativa, perguntando à pedra “o que você representa?”.
- Confronto com a Sombra: O trabalho terapêutico seria ajudar Arthur a integrar sua Sombra, a reconhecer e aceitar os aspectos de si mesmo que ele rejeita. A pedra não precisa ser um peso que o afunda, mas pode se tornar a fundação de uma nova personalidade.
- Busca de Sentido: O objetivo final é reconectar Arthur com um sentido maior para sua vida, um propósito que transcenda seu ego sofredor, permitindo que o processo de individuação seja retomado.
- Aaron Beck: O Mapa Mental que Leva ao Naufrágio
Metáfora: A mente de Arthur é como um GPS com um software defeituoso. Ele inseriu o destino “felicidade”, mas o mapa está tão distorcido por erros de programação que a única rota calculada leva a um abismo.
Visão Teórica: Beck, o pai da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), analisaria o caso através da Tríade Cognitiva Negativa. Arthur possui: 1) uma visão negativa de si mesmo (“sou um fardo”); 2) uma visão negativa do mundo (“ninguém se importa, o mundo é cruel”); e 3) uma visão negativa do futuro (“nada vai melhorar, a única saída é a morte”). Seu plano é o resultado lógico e racional dessas crenças disfuncionais. A ideia de “não dar trabalho” é uma evidência clara de sua crença de ser um peso para os outros. O suicídio não é visto como uma tragédia, mas como a solução mais lógica para um problema insolúvel.
Técnicas:
- Registro de Pensamentos Disfuncionais: Beck pediria a Arthur para monitorar e registrar seus pensamentos automáticos negativos ao longo do dia.
- Questionamento Socrático: O terapeuta desafiaria esses pensamentos com perguntas: “Que evidências você tem de que é um fardo?”, “Existem outras maneiras de interpretar essa situação?”, “Quais as vantagens e desvantagens de acreditar nesse pensamento?”.
- Reestruturação Cognitiva: O objetivo é ajudar Arthur a identificar suas distorções cognitivas (ex: catastrofização, pensamento tudo-ou-nada) e substituí-las por crenças mais realistas e adaptativas. Ao corrigir o “software” defeituoso, o GPS da mente pode recalcular a rota em direção à vida.
- Viktor Frankl: O Vazio Existencial no Meio do Oceano
Metáfora: Arthur está à deriva em um oceano de apatia, em um barco sem leme e sem destino. O suicídio não é um ato de raiva, mas de rendição ao Vazio Existencial.
Visão Teórica: Frankl, criador da Logoterapia, argumentaria que a causa raiz da depressão de Arthur é a frustração de sua “vontade de sentido”. Ele sofre de um profundo vazio existencial. A vida perdeu todo o propósito, e o suicídio aparece como uma fuga do tédio e da falta de significado. O plano de desaparecer completamente no mar simboliza a própria sensação de insignificância. Ele não está atacando um objeto (Freud) ou fugindo do Outro (Lacan); ele está simplesmente se entregando ao nada, porque acredita que ele mesmo é nada.
Técnicas:
- Diálogo Socrático e Intenção Paradoxal: Frankl ajudaria Arthur a encontrar um sentido, mesmo no sofrimento. Ele poderia usar a intenção paradoxal, talvez pedindo a Arthur para tentar se sentir ainda mais desesperado, o que muitas vezes quebra o ciclo da ansiedade.
- Busca de Valores: O terapeuta exploraria três tipos de valores que podem dar sentido à vida: valores criativos (o que ele dá ao mundo, através de um trabalho ou hobby), valores vivenciais (o que ele recebe do mundo, como o amor, a arte, a natureza) e valores de atitude (a atitude que ele toma diante de um sofrimento inevitável).
- Autotranscendência: O objetivo é ajudar Arthur a desviar o foco de si mesmo e de seu sofrimento, e a se conectar com algo ou alguém fora de si. Ao encontrar uma tarefa a cumprir ou uma pessoa para amar, ele preenche o vazio existencial e a vontade de viver retorna.
- Carl Rogers: A Tempestade da Incongruência
Metáfora: Arthur se sente como um barco de papel tentando navegar em uma tempestade. Ele foi construído para ser de uma certa maneira (seu “eu ideal”), mas sua natureza real (seu “eu real”) é outra, e essa tensão está o despedaçando.
Visão Teórica: Rogers, da Abordagem Centrada na Pessoa, veria o desespero de Arthur como o resultado de uma profunda incongruência. Há um abismo entre quem ele realmente é (seus sentimentos, desejos e valores autênticos) e a pessoa que ele sente que deveria ser, com base nas “condições de valor” impostas pela família e pela sociedade. Esse conflito interno bloqueia sua tendência atualizante, a força vital inata que o impulsiona para o crescimento. O suicídio é a expressão máxima da auto-rejeição, a conclusão de que seu “eu real” é inaceitável e indigno de existir.
Técnicas:
- Aceitação Positiva Incondicional: O terapeuta ofereceria um ambiente de total aceitação, sem julgamento. Pela primeira vez, Arthur poderia se sentir seguro para expressar seus sentimentos mais sombrios sem medo de ser rejeitado.
- Escuta Ativa e Empática: O terapeuta refletiria os sentimentos de Arthur, não apenas suas palavras, ajudando-o a se ouvir e a se compreender em um nível mais profundo. O foco não é em “consertar”, mas em “estar com”.
- Congruência do Terapeuta: O terapeuta seria genuíno e transparente na relação, servindo como um modelo de autenticidade.
- O objetivo é criar um clima terapêutico tão seguro que a tendência atualizante de Arthur seja desbloqueada. Ao se sentir aceito pelo terapeuta, ele pode começar a se aceitar. A incongruência diminui, e o desejo de viver, que sempre esteve lá, pode finalmente vir à tona.
Convergências e Divergências
Ponto em Comum | Divergência Principal |
Sofrimento Profundo: Todos concordam que a ideação suicida é um sinal de dor psíquica extrema e não um ato de “fraqueza” ou “covardia”. | Origem da Dor: A causa raiz varia drasticamente: um conflito inconsciente (Freud), uma ruptura simbólica (Lacan), a perda de sentido (Jung, Frankl), pensamentos distorcidos (Beck) ou auto-rejeição (Rogers). |
A Importância da Relação: Todos, de formas diferentes, veem a relação terapêutica como um veículo essencial para a cura. | O Papel do Terapeuta: O papel vai de um “arqueólogo” do inconsciente (Freud) e um “espelho” empático (Rogers) a um “treinador” de pensamentos (Beck) e um “guia” filosófico (Frankl). |
A Necessidade de Expressão: Todos acreditam que a verbalização do sofrimento é um passo crucial. | O Foco da Terapia: O foco pode ser no passado (Freud), no presente (Beck, Rogers) ou no futuro (Frankl). Pode ser no inconsciente (Freud, Jung, Lacan) ou no consciente (Beck, Rogers, Frankl). |
Diálogo dos Mestres: Uma Mesa Redonda sobre o Caso de Arthur
Imagine os seis teóricos sentados em uma sala, discutindo o plano de Arthur. A conversa poderia se desenrolar da seguinte forma:
Freud: (Ajeitando os óculos) Senhores, o caso é claríssimo. O plano de Arthur, com a pedra e o tiro, é um espetáculo sádico. Ele não quer morrer, ele quer matar. Matar o objeto de amor perdido que ele engoliu e que agora o corrói por dentro. A preocupação em “não dar trabalho” é a mais pura ironia do superego, uma confissão disfarçada de sua imensa agressividade.
Lacan: (Com um sorriso enigmático) Meu caro Freud, você vê um drama, uma mensagem. Eu vejo uma falha na própria matriz simbólica. Isso não é um acting out, um recado para o Outro. É uma passagem ao ato. Arthur não está mais no palco, ele está caindo para fora do teatro. Ele não quer matar o Outro dentro de si; ele quer apagar a si mesmo da equação do Outro. É uma tentativa de se tornar o nada absoluto para escapar da angústia de ser, para o Outro, menos que nada.
Jung: (Com uma voz grave) Vocês dois falam de conflito e de linguagem. Eu vejo uma alma sedenta. O barco à deriva, o oceano… são símbolos poderosos. Arthur não está matando um objeto ou fugindo do Outro. Ele está respondendo a um chamado de sua Sombra, que se tornou pesada demais – a pedra. Sua vida perdeu o mythos, o sentido. Ele não quer a morte, ele quer o fim de uma vida sem alma. O suicídio é uma perversão do desejo de transformação, uma individuação que deu terrivelmente errado.
Beck: (Interrompendo, com pragmatismo) Senhores, com todo respeito às suas belas metáforas, estamos nos perdendo em abstrações enquanto o homem planeja se matar. A questão é mais simples e mais urgente. O plano de Arthur é um algoritmo, o resultado de um software mental defeituoso. Seus pensamentos automáticos – “sou um fardo”, “nada vai mudar”, “a morte é a única solução” – formam uma lógica interna impecável. Ele não precisa de arqueologia da alma, ele precisa de uma reprogramação cognitiva. Vamos corrigir o código, não discutir a natureza do fantasma na máquina.
Frankl: (Com uma calma serena) Dr. Beck, você está certo sobre a lógica, mas erra sobre a sua origem. O defeito não está no “software”, mas na ausência de um “propósito” para o qual rodá-lo. O problema de Arthur não é um pensamento distorcido, mas um vazio existencial. Ele olha para o futuro e não vê nada. O suicídio não é uma solução para um problema, mas uma fuga da ausência de um motivo para viver. Antes de corrigir seus pensamentos, precisamos acender uma única faísca de sentido. Perguntem a ele não por que ele quer morrer, mas pelo que ele ainda poderia viver, mesmo que por um dia.
Rogers: (Que ouvia a todos com atenção) Eu ouço todos vocês. Ouço a raiva, a angústia, a falta de sentido, os pensamentos tortuosos. Mas, antes de tudo, eu ouço um homem que se sente profundamente inaceitável. Ele acredita que seu “eu real” é tão falho que precisa ser aniquilado de forma elaborada para não incomodar ninguém. Ele nunca se sentiu verdadeiramente visto ou aceito por quem ele é. Minha abordagem não seria interpretar seu plano, nem desafiar seus pensamentos, nem mesmo lhe dar um sentido. Seria criar um espaço onde ele pudesse, talvez pela primeira vez, tirar a pedra do pé e me mostrar suas feridas, com a certeza absoluta de que eu não o julgaria. A cura não vem da nossa inteligência, mas da nossa capacidade de oferecer um refúgio seguro para que a própria força de vida dele, a tendência atualizante, possa voltar a respirar.
Glossário para Leigos
- Pulsão de Morte (Freud): Uma força inconsciente e inata que nos impulsiona em direção à autodestruição e ao estado inorgânico.
- Passagem ao Ato (Lacan): Um ato impulsivo e violento, como o suicídio, que representa uma ruptura total com a realidade simbólica (a sociedade, a linguagem). É uma saída de cena, não um pedido de ajuda.
- Individuação (Jung): O processo natural de desenvolvimento psicológico ao longo da vida, no qual uma pessoa se torna um “indivíduo” unificado e completo, integrando aspectos conscientes e inconscientes.
- Sombra (Jung): A parte “escura” da nossa personalidade, que contém tudo aquilo que reprimimos e não aceitamos em nós mesmos (instintos, fraquezas, medos).
- Tríade Cognitiva (Beck): O padrão de pensamento negativo central na depressão, composto por uma visão negativa de si mesmo, do mundo e do futuro.
- Vazio Existencial (Frankl): Um sentimento profundo de apatia, tédio e falta de sentido na vida, que surge quando a “vontade de sentido” é frustrada.
- Incongruência (Rogers): O conflito interno que ocorre quando há uma grande diferença entre o “eu real” (quem você realmente é) e o “eu ideal” (quem você acha que deveria ser).
- Tendência Atualizante (Rogers): A motivação inata presente em todos os seres vivos para desenvolver suas potencialidades ao máximo.
Referências Bibliográficas
- Freud, S. (1917). Luto e Melancolia. Em: Obras Completas, Volume 12. Companhia das Letras.
- Lacan, J. (1962-63). O Seminário, Livro 10: A Angústia. Jorge Zahar Editor.
- Jung, C. G. (1921). Tipos Psicológicos. Editora Vozes.
- Beck, A. T., Rush, A. J., Shaw, B. F., & Emery, G. (1979). Terapia Cognitiva da Depressão. Artmed Editora.
- Frankl, V. E. (1946). Em Busca de Sentido. Editora Vozes.
- Rogers, C. R. (1961). Tornar-se Pessoa. Martins Fontes.
Este estudo foi desenvolvido pelo psic. Flávio Pereira (CRP 08/05327) com apoio da IA Terapeuta Copiloto, apresentado em aula do grupo de Supervisão de Caso do IFP.


